sábado, 25 de agosto de 2007

[...]
Nos meus pés coceguentos,
E duros como o sol, e aberto como flores,
E perpétuos, magníficos soldados
Na guerra gris do espaço,
Tudo termina, a vida termina definitivamente nos meus pés,
O estrangeiro e o hostil aí começam:
Os nomes do mundo, o fronteiriço e o remoto,
O substantivo e o adjetivo que não cabem no meu coração
Com densa e fria constância aí se originam.



[Ritual de minhas pernas – Pablo Neruda]


e como tudo termina mesmo... este aqui terminou.

domingo, 12 de agosto de 2007

Coisas para raros

a areia que invade entranhas
comporta os pés no sossego da tarde
em que ondas correm pelos caminhos da alma
sem que arda um último raio que não parta
sem que o horizonte prenhe de paisagem esconda-nos a face
nem o pesar revele-se substância e se espalhe com o vento
por um abraço, na beira, longe do cais,
e que venha outro dos que já não virão mais
fazemos votos que os silêncios mastigados se convertam em prece
para o que a voz teima em confessar aos ombros estimados
diante da doçura em descompasso de espumas
num movimento de alva candura permaneça, enfim.




manu e eu, hoje, antes do sol se por.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

desabando um desabafo descabido

destruo sem descontruir
o descontínuo instante desconexo
deste espaço desgovernado
desse incerto desinfeliz
me deste a mão em desuso
se desse novamente desabotoaria
só me resta degustar
continuamente o meu desgosto.

domingo, 5 de agosto de 2007

– duas velas –

mergulho no amplo céu
em que o mar celeste de teus olhos
me fez naufragar em ondas vazias
onde ainda feliz implorava
por um verso que me ilumina.
hoje o medo caminhou
pela avenida antiga
num enfeite estelar
que teimava em aparecer
com encanto discreto
ao lado de sua amiga
amarga a me pedir
na ternura de teus lábios
naquela noite esquecida
e no sono invadido
que os anjos que vagueiam
com a nossa canção
se calassem.


nestes cantos celestes
os suspiros a te adorar
pediam no teu olhar calado
mas que enche a alma
com riso e sem despeito
a tarde que não mais alivia
e que ali estavam a escutar
os velhos e sábios
parados na padaria da esquina
com um olhar que a sede não sacia
para que os anjos que passeiam
em nosso colchão
não dormissem.

sábado, 4 de agosto de 2007

até este sonho ruim
dormir de novo
eu já acordei sem mim.


[...]


dormir com dores [hoje] e tentar acordar [amanhã] sem elas...

terça-feira, 17 de julho de 2007

enfim, um buraco
um copo quebrado
no chão da sala
o vulto do silêncio
que já passou
bem no meio da janela...

palavras vazias
tatuadas num papel
rabiscos que jamais serão lidos de novo
voam como a poeira da estrada
perdem-se em qualquer rua
e voltam rasgadas como um olhar...